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A convidada bocudinha feminista!

  • Foto do escritor: Naiah Reis
    Naiah Reis
  • 15 de out. de 2020
  • 2 min de leitura

Eu costumava gritar.

Um grito de raiva de dentro da alma. Uma raiva reprimida e discriminada que não me foi permitido expressar, quando comecei a sentir os efeitos do regime colonial-capitalístico e patriarcal que estamos inserides.


De tudo, me lembro dos momentos de pureza e ingenuidade que foram condenados. A doçura, a confiança, o amor, a gentileza.


Me lembro também das atitudes “proibidas”, “coisa de homem”, intituladas de maneira ignorante acerca de um tema tão pouco explorado pela grande mídia. Gênero.


É uma burrice tão limitadora enxergar a vida nessa dualidade doentia que define padrões de comportamento para determinados tipos de pessoas.


Somos plurais. Tudo podemos.


É triste enxergar essas limitações nos corpos. É revoltante sentir na pele as marcas históricas que perduram de forma genética e genérica, geração após geração, de silenciamento e violência dos que não importam.


Os silêncios só existem porque têm vozes gritando mais alto. Tem vozes que passam por cima de todo e qualquer um. Vozes colonizadoras que estupraram nossa cultura, nossa história, nossa beleza, nossa liberdade. Que roubaram nosso sorriso, nossa identidade.


E que continuam de forma desenfreada a reproduzir esse estupro coletivo que mantém a zona de conforto estável de quem se acha inabalável.


Eu não to falando de coisa de homem.


To falando de história, de registro, de energia despolarizada. To falando de ser expulsa de lugares pintados de uma falsa utopia. De ser silenciada pelos netos, bisnetos, dos colonizadores, estupradores. To falando dessas pessoas que ainda se sentem no direito de reprimir a liberdade alheia, de impor condições para habitar sua tão preciosa Terra. Terra essa que foi usurpada, que derramou muito sangue inocente em detrimento do bel prazer. E to falando da ignorância enrustida na veia ancestral de todos aqueles que se negam a enxergar o quanto reproduzem essa doença devastadora. Ninguém tem culpa de onde nasceu, do corpo, da família. Mas tem MUITA responsabilidade social pelo lugar que ocupa.


Mas aí, tudo que eu falei é história pra boi dormir. Porque quem tem razão é o Rei do Gado. O Patrão. A convidada bocudinha feminista, pode dar meia volta, enfiar o rabo entre as pernas e voltar pro lugar que lhe pertence. Porque a presença dela ali, ameaça o lugar de poder, o privilégio narcisista. Vai que ela desperta os vassalos que ainda dormem né? E assim seguimos nesse descompasso secular que fere a insurgência urgente de uma nação. E meu grito preso na garganta, e a raiva que transpassa meu corpo, hoje eu transformo em poesia, em arte, em um grito silencioso que toca os corações de quem está aberto para a transformação que vem a galope. Só que não vem mais num cavalo branco. Vem do sangue que carrego em meu ventre, e que devolvo a Mãe Terra em oração. Com amor, Naiah

 
 
 

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